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Lula e as prostitutas - A Gazeta (MT) - 12/5/2005
Outros Jornais

 

Antero Paes de Barros
O governo do PT vem demonstrando inesgotável capacidade de criar confusão e de gerar situações que desgastam a sua própria imagem e arranham o prestígio do presidente da República e seus ministros. Não há uma semana em que não surjam na mídia notícias que ridicularizam os administradores petistas ou expõem publicamente sua fragilidade administrativa e sua incompetência.
Em geral é o presidente Lula, com suas frases oportunas e seu raciocínio exótico, que provoca reações e espanta a sociedade. Quando o Lula falha ou se cala, tem sempre algum ministro ávido em contribuir para manter o governo na berlinda. No mau sentido, naturalmente.
Na semana retrasada, o governo instalou enorme polêmica nacional, ao divulgar a cartilha de expressões politicamente corretas. Obra da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, a tal cartilha listava nomes, apelidos e expressões que deveriam ser evitadas para não magoar e nem ofender integrantes de grupos minoritários, portadores de deficiências de qualquer natureza ou até mesmo pessoas com atributos físicos diferenciados. Preto, negro, baixinho, veado e outras expressões já incorporadas ao linguajar popular se tornaram condenáveis, inadmissíveis.
Choveram críticas de todos os lados. Intelectuais, acadêmicos, políticos, estudantes, enfim, todos acharam um absurdo a preocupação do governo com o tema. A cartilha foi recolhida para revisão e não se falou mais no assunto.
Na semana passada, quando a crise do politicamente correto parecia estar esquecida, o Correio Braziliense trouxe uma reportagem informando que o juiz da Vara da Infância e da Juventude do Distrito Federal pediu ao Ministério Público Federal uma investigação sobre a possibilidade de o Ministério do Trabalho estar estimulando a prostituição.
O ministro do Trabalho, Ricardo Berzoini, que já foi responsabilizado por maus tratos aos anciãos, quando ordenou um recadastramento de todos os aposentados do país, agora estaria estimulando jovens a se prostituir. Como? Ao definir, na Classificação Brasileira de Ocupações, com riqueza de detalhes nunca vista o serviço das profissionais do sexo. São tantas as explicações e as informações sobre o trabalho das prostitutas, que a CBO estaria incentivando homens e mulheres a ingressarem na profissão considerada das mais antigas do mundo.
E o que é pior: o Ministério do Trabalho recomenda que nessas áreas é importante começarem cedo. O autor do projeto de legalização da profissão, deputado Fernando Gabeira, defende o governo dizendo que não é para começarem aos 16 anos e sim aos 18 anos. Ainda cedo, portanto. Ou seja, diante do fracasso do programa Primeiro Emprego, o governo Lula já pensou na ocupação primeira de nossos filhos, filhas, netos e netas. Diante das dificuldades do mercado de trabalho, do desemprego gerado pelos juros altos, o governo Lula encontrou a solução para os nossos filhos: sejam prostitutas, ou para ficar politicamente correto, como reza a cartilha, profissionais do sexo.
De fato, está lá no site do Ministério do Trabalho, a definição de profissionais do sexo e alguns de seus sinônimos, tais como "garota de programa, meretriz, messalina, michê, mulher da vida, prostituta, puta, quenga, rapariga, transexual, travesti". Explica-se como deve se comportar o profissional, com dicas como "produzir-se visualmente, aguardar no ponto, seduzir com o olhar, abordar o cliente, encantar com a voz, seduzir com apelidos carinhosos, conquistar com o tato" e outras técnicas.
O Ministério do Trabalho explica que o profissional do sexo deve fazer companhia ao turista, companhia ao cliente solitário, acompanhar o cliente em festas, viagens e passeios, jantar e pernoitar com o cliente. E diz também como o profissional deve atender o cliente, com itens que incluem a negociação de preço, realizar fantasias eróticas, fazer carícias e streap-tease. Enfim, se alguém deseja se iniciar na atividade, o Ministério do Trabalho diz como fazer, listando, inclusive, os acessórios como agenda, cartões de visita, celular, documentos de identificação, gel lubrificante à base de água, maquilagem, papel higiênico, preservativo masculino e feminino.
Não fosse isso tudo absurdo, inapropriado e muito esquisito, poder-se-ia indagar se é possível admitir que tenha gente dentro do governo se ocupando de instruir as candidatas à prostituição. Está certo que o Lula busque de todas as formas criar empregos para tentar cumprir a sua meta de campanha de criar 10 milhões de posto de trabalho. Mas aí também já é demais. O Brasil precisa mesmo formar profissionais em diversas áreas. Mas não sente falta de profissionais do sexo. Afinal, pelo que dizem os jornais, este é um produto de exportação do Brasil.
A verdade é que a máquina do governo está inchada por milhares de petistas e que boa parte desses novos funcionários não têm mesmo o que fazer. Daí, ficam inventando serviço e acabam fazendo bobagens. Pois se a prostituição é uma atividade vista com reservas, que beira a vadiagem, é contravenção estimular ou orientar as pessoas a ingressar nesse tipo de trabalho, digamos assim.
O governo não respondeu, ainda, às indagações do juiz da Vara da Infância e da Juventude. A página do Ministério do Trabalho ficou uns dias fora do ar, mas já voltou a funcionar. Inclusive as páginas dedicadas à prostituição.
Está lá, pra todo mundo ver. É a prova inconteste de que neste país onde já tivemos governos acusados e até destituídos por corrupção, por tortura a presos políticos, por preguiça e desvios diversos, temos agora um governo trapalhão que pode ser processado por cafetinagem. Era isso o que faltava ao Brasil: um governo cafetão.
Antero Paes de Barros é jornalista e senador pelo PSDB-MT.

 
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